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domingo, 16 de novembro de 2008

A crise na China

As dimensões do programa de estímulo à atividade econômica anunciado pelo governo da China não deixam dúvidas, se ainda havia alguma, de que não passava de falácia a tese de muitos economistas dos países ricos, surgida no início do agravamento da crise nos Estados Unidos e na Europa, de que os grandes países emergentes (os Brics) sofreriam pouco com ela e contribuiriam até para amenizá-la e aliviar seus efeitos, porque continuariam a crescer vigorosamente. Hoje se verifica que a excepcional performance econômica dos emergentes só foi possível graças à fantástica prosperidade dos países ricos bruscamente interrompida pelo estouro da "bolha" financeira.

Agora, a violência dos efeitos da crise na China mostra como é grave a ameaça para todos os países emergentes, inclusive o Brasil, cujo ritmo de crescimento, como o chinês, será fortemente reduzido. Proporcional ao impacto da crise, o programa chinês prevê, além de redução de impostos e medidas para aumentar a liquidez do sistema financeiro, investimentos equivalentes a US$ 586 bilhões (16% do PIB de 2007 e praticamente o valor dos orçamentos públicos do país) em 2009 e 2010 para conter a desaceleração da economia. Em valor, o programa chinês é comparável ao montado às pressas pelas autoridades americanas para conter a crise financeira nos EUA. Os investimentos, cuja fonte de financiamento ainda é obscura, destinam-se a projetos de infra-estrutura, meio ambiente, inovação tecnológica e reconstrução de regiões afetadas por desastres naturais.

É a ação mais ampla de Pequim contra os efeitos da crise. Nas últimas semanas, as autoridades chinesas fizeram três cortes na taxa básica de juros, reduziram a tributação das exportações e tomaram medidas para baratear os produtos no mercado interno.

Ironicamente, até alguns meses atrás, o governo chinês tomava medidas para conter o crescimento econômico, que pressionava a inflação. Desde o segundo semestre de 2007, a economia chinesa se desacelerava. Depois de registrar aumento de 12,6% no segundo trimestre do ano passado, em relação a igual período de 2006, a expansão foi perdendo velocidade. A crise global agravou esse processo.

No terceiro trimestre de 2008, o crescimento foi de 9%, um número que merece ser comemorado em qualquer parte do mundo, menos na China. É o pior resultado dos últimos cinco anos. As projeções mais recentes para 2009 são de crescimento entre 7,8% e 7,6%. Os pessimistas falam em 6%. Será um desempenho preocupante para os dirigentes do Partido Comunista chinês. Eles calculam que o crescimento mínimo anual deve ser de 8%, para gerar empregos suficientes para os milhões de trabalhadores rurais que anualmente buscam trabalho nas cidades. Se a China crescer menos que isso, podem surgir graves problemas sociais.

As regiões industrializadas do sul do país - que prosperaram de maneira notável nas últimas décadas, graças às exportações de produtos eletrônicos, roupas, brinquedos e móveis que enchem as prateleiras das lojas dos Estados Unidos e de outras partes do mundo - foram fortemente afetadas pela crise nos países ricos. O corte nos pedidos dos importadores, sobretudo americanos, o aumento das matérias-primas e outros problemas levaram à falência mais de 68 mil pequenas empresas. Até o fim do ano, 2,5 milhões de empregos poderão ser extintos só na região do delta do Rio Pérola.

O fantasma do desemprego em massa assombra os dirigentes comunistas. Seu crescimento pode levar à perda de apoio popular ao governo e a manifestações de insatisfação que, se não contidas no início, podem levar a uma situação incontrolável. Desde outubro, já houve mais de dez protestos de empregados de empresas exportadoras, algumas com ações negociadas em bolsa.

Uma crise política na China, que afete seriamente a atividade econômica, afetará também a economia mundial, por causa do grande volume de matérias-primas e produtos acabados que o país importa do resto do mundo. Na semana passada, por exemplo, a brasileira Vale anunciou ter desistido de negociar um reajuste adicional de 12% no preço do minério de ferro que exporta para a China por causa da crise internacional e da mudança do quadro econômico chinês.

Estadão

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

China aqui e Lula lá

Nos dias 21 e 24 do mês passado tive o privilégio de atuar como debatedor em dois eventos que integraram a Semana da Universidade de Yale (EUA), em São Paulo, quando professores e gestores dessa escola aqui estiveram em intensa programação. O primeiro ocorreu no Instituto Fernand Braudel, associado à Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), onde o visitante Shiwu Chen, professor de Finanças, ministrou palestra sobre a China. O segundo foi um debate sobre Mudanças de Poder Global: Perspectivas Econômicas e Geopolíticas, organizado pelo Centro de Estudos Americanos da Faap e pelo Instituto FHC. Participaram por Yale o conhecido historiador e professor Paul Kennedy, novamente o professor Chen e Nayan Chanda, editor do site Yale Global Online. Do nosso lado, também o embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da mesma fundação, o embaixador Sérgio Amaral, diretor do referido centro, e o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan.

Também no segundo evento meu interesse se concentrou na China, dado o angustiante momento por que passa a economia mundial, assolada por uma intensa crise financeira de grandes repercussões nas atividades econômicas. E é sabido que o Brasil deposita no desempenho da economia chinesa muitas de suas esperanças de sofrer um impacto relativamente menor do que aquele que se passa nos EUA e em outros países já fortemente atingidos.

Nascido na China, o professor Chen de lá saiu para estudar em Yale, onde ficou como professor, mas visita freqüentemente seu país de origem, onde tem familiares e mantém contatos com empresários e autoridades governamentais. Dos especialistas que já ouvi sobre a China, pareceu-me o mais conhecedor, integrando muito bem os aspectos econômicos, sociais e políticos.

Indagado, reconheceu que o crescimento econômico é fonte de legitimação política do governo chinês, que assim se empenhará em manter elevada a taxa de crescimento econômico, pois uma abaixo de 8% ao ano já seria malvista. Assim, é bom saber que lá haverá gente a fazer força também pelo Brasil, o que solidifica nossas esperanças de nos sairmos menos mal de toda essa encrenca.

No modelo chinês, merece destaque a referência de Chen ao fato de que a concentração de investimentos em manufaturas e infra-estrutura, que se evidencia aos olhos da população, desempenha o papel de mostrar claramente que o país cresce de forma acelerada. No processo, entretanto, a distribuição de renda é comprometida, pois esses investimentos absorvem muitos recursos e a ênfase na exportação reduz o espaço para indústrias mais voltadas para as necessidades da população. Baixa ênfase também é dada aos serviços sociais, como educação, saúde e previdência social, em que os investimentos não são realizados com a mesma intensidade dos que ocorrem nos setores que o governo prioriza.

Na máquina de crescimento chinesa, Chen também destacou que 76% dos ativos pertencem ao governo, que assim recebe o retorno correspondente, consome relativamente pouco, poupa muito para realizar investimentos e é bem contido ao distribuir benefícios à população.

Além de interessantes por si mesmos, esses e outros aspectos do modelo chinês se contrapõem ao tocado aqui pelo presidente Lula. O aspecto crucial é a taxa de investimento como proporção do produto interno bruto (PIB), ou seja, aquela parte da produção que não é consumida, aplicada que é na expansão da capacidade produtiva da economia. Na China essa taxa é cerca do dobro da brasileira, que está em torno de apenas 19% do PIB. A diferença entre os dois países no caso dos investimentos públicos é infinitamente maior, pois o governo daqui, além de não ter o peso relativo do chinês, elegeu o consumismo governamental e o distributivismo social como seus ícones maiores. Só recentemente acordou, mas ainda segue sonolento, para os investimentos e o minúsculo e vagaroso Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na China o investimento foi tão longe que já se fala de excesso de capacidade em vários segmentos da economia.

Nessa percepção comparativa do que se passa nos dois países, é inescapável a conclusão de que temos muito a aprender um com o outro, inclusive buscando ajuda recíproca. De seu lado, os chineses poderiam ensinar-nos como investir mais. Como apreciam essa prática, até investir mais no Brasil. Por exemplo, soube do professor Chen que a indústria do país avançou muito no desenvolvimento e produção de grandes equipamentos para instalações portuárias, de que somos tão carentes, e poderíamos retribuir lições e investimentos com algumas encomendas nessa área, possivelmente facilitadas pelo excesso de capacidade que se manifesta lá.

Nessa linha de reciprocidade, também poderíamos oferecer algo grandioso, dado o seu impacto potencial na macropolítica chinesa. Como ex-chefes daqui e de outras nações, começando em 2011 nosso presidente estará habilitado para palestras e consultorias e poderia transmitir aos chineses sua experiência em programas distributivos, como o Bolsa-Família. Antes de sair, contudo, precisaria consultar-se com seus sábios quanto a uma demanda que certamente lhe fariam os governantes chineses: "Olhe, companheiro, queremos que você nos ensine como mexer os pauzinhos para distribuir, mas sem sacrificar tanto o investimento público e o crescimento, como você fez no Brasil."

Portanto, incluamos na nossa pauta de intercâmbio com os chineses esses dois itens, distribuição e crescimento. É possível que esteja aí a oportunidade de pensarmos uma solução de meio-termo para o diferente contraste entre uma coisa e outra, que os dois países hoje enfrentam.

Roberto Macedo, economista (USP), com doutorado pela Universidade Harvard (EUA), pesquisador da Fipe-USP e professor associado à Faap, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda

Estadão
07 de novembro de 2.008

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sábado, 9 de agosto de 2008

A ameaça chinesa

A vigorosa China, campeã mundial do crescimento econômico por mais de uma década, é hoje um fator de risco para a estabilidade global, juntamente com os Estados Unidos, segundo Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-economista-chefe do FMI. Essa avaliação interessa muito ao Brasil. O mercado chinês é hoje o terceiro principal destino das exportações brasileiras. De janeiro a julho deste ano, absorveu produtos brasileiros no valor de US$ 9,9 bilhões, praticamente encostando no segundo colocado, o mercado argentino (US$ 10,3 bilhões). Os Estados Unidos mantiveram o primeiro lugar, com importações de US$ 16 bilhões no período.

A crise americana já era sensível no ano passado e ninguém sabe quando terminará, porque o mercado imobiliário dos EUA, segundo muitos analistas, ainda não bateu no fundo do poço. Talvez a pior fase tenha passado e não se pode arriscar nenhuma afirmação mais otimista que essa. Dúvidas sobre a evolução da economia chinesa tornam o quadro geral muito mais inseguro.

Na China, como nos Estados Unidos, há dificuldades para combater a inflação. O caso chinês é particularmente complicado, segundo Rogoff, porque o banco central do país não tem poder. Enquanto as medidas de combate à inflação não surgem, os preços sobem e os sinais de crise se acumulam, porque o ritmo do crescimento econômico da China é insustentável, assim como o nível de seu investimento, próximo de 50% do PIB. Rogoff não diz como se fará o ajuste chinês, mas arrisca uns poucos palpites: flutuação e valorização do yuan, depois da Olimpíada, e reorganização do sistema financeiro. Com o esforço para reequilibrar a economia, o crescimento, ainda na altura de 10% ao ano, poderá diminuir. Em dois anos talvez chegue a uns 6%. Rogoff atribui 50% de probabilidade a essa hipótese.

Durante anos, a China prestou ao mundo pelo menos dois bons serviços. Exportando enormes e crescentes volumes de produtos baratos, contribuiu para conter a inflação na maior parte dos mercados. Crescendo por muito tempo a taxas entre 8% e 10% ao ano, contribuiu para uma longa fase de prosperidade global com estabilidade de preços. A contribuição para a prosperidade incluiu o financiamento do déficit externo e do rombo fiscal dos EUA, ajudando os americanos a prolongar seu crescimento. Esse financiamento foi feito com reservas acumuladas graças ao superávit comercial e ao grande fluxo de investimento direto na economia chinesa.

Esses bons serviços tiveram custos, principalmente para as economias ocidentais. A produção barata da China impôs uma dura competição às indústrias de outros países. Eliminou empregos, desviou investimentos e gerou reações protecionistas. O Brasil não ficou livre desses efeitos. O outro grande custo só apareceu mais lentamente. A economia chinesa é uma devoradora insaciável de energia, de matérias-primas, como produtos agrícolas e minérios, e de bens intermediários, como aço. Ao importar enormes volumes desses insumos, a China ajudou a economia dos países vendedores, como o Brasil, mas o efeito cumulativo desse processo foi uma explosão de preços.

A pressão sobre os mercados de matérias-primas não foi exercida só pela China. A Índia e outros importadores de alimentos e outros insumos, também contribuíram. Mas a participação chinesa foi sem dúvida a mais importante. Para continuar crescendo, a China deixou de exportar deflação e virou exportadora de inflação.

A retração da economia chinesa, se vier, terá um custo não desprezível para o Brasil. O País está razoavelmente preparado para turbulências externas, como têm observado Rogoff e outros economistas de prestígio. Mas a China é um parceiro de peso incomum. De janeiro a julho, proporcionou 8,9% da receita comercial brasileira, comprando principalmente primários e semimanufaturados.

Um esfriamento da economia afetará importações chinesas e, provavelmente, também as cotações de matérias-primas e bens intermediários. A valorização desses produtos foi muito importante, nos últimos anos, para a expansão das exportações brasileiras. É hora de pensar em como manter esse crescimento sem depender tanto daquelas classes de produtos. Não se trata de menosprezá-las, mas de reforçar a pauta exportadora.

Estadão

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